quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A verdade que se espera

     Questiona-se muito sobre a efetiva necessidade de uma revisão histórica relativa aos atos ocorridos dentre o período de 1964 a 1985, onde o Brasil esteve imerso em um regime ditatorial de exceção, porém, esta revisão é de sumária importância para o adequado entendimento dos fatos ocorridos a seu tempo, pois existem pessoas carentes de respostas sobre seus entes queridos e para que as trevas deste tempo se dissipem por completo.
     No entanto, a condução dos trabalhos tem admitido um viés ideológico que criminaliza todo e qualquer militar, ainda que seja no inconsciente coletivo, e sacraliza os militantes dos partidos donos atuais do governo, que à época militavam em guerrilhas armadas, objetivando uma revolução socialista no Brasil, ou seja, trocar a ditadura militar pela "ditadura do proletariado".
     Logo, historicamente falando, a ditadura militar brasileira foi cruel e violou gravemente os direitos humanos, porém a "ditadura do proletariado" proposta era ainda mais violadora, vide os exemplos soviéticos, cubanos e similares.
     Indubitavelmente, urge saber o que de fato houve neste tempo, porém uma democracia de verdade nasce do livre debate entre os atores históricos de fato envolvidos e não da supressão dos fatos efetivos em prol de uma "verdade do partido".
     Como dizia George Orwell, em "1984", "quem controla o presente, controla o passado e quem controla o passado controla o futuro", cabe ao Brasil debater e construir um futuro onde os direitos humanos e a verdade jamais voltem a ser desrespeitados.
      Porém, em tempos de leninismo no poder, aguardar um bom e legítimo debate é ser excessivamente inocente.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Sem tucanar! Conhecer Lênin dá medo

     Terminei hoje a excelente obra do historiador de Harvard Richard Pipes "Historia Concisa da Revolução Russa" e fiquei abismado com o desenrolar dos fatos que precederam a Revolução Russa e termina na sucessão de Lênin pelo maior tirano que nossa história conheceu, Stálin.
      Sim, Stálin foi o pior de todos os tempos, além de ser cruel com os contrários ao Partido Comunista, ele matava membros do Partido que tinham potencial de criar uma oposição a ele, vide o exemplo do lamentável Trótsky, (que seria o natural sucessor de Lênin, mas não conseguiu por pura falta de habilidade política) assassinado pouco tempo depois da morte de Lênin. Stálin, além de matar russos, foi responsável pela morte de milhões de ucranianos e, tal qual Hitler, Lênin e Stálin foram responsáveis por um enorme genocídio de judeus, ciganos, poloneses, alemães, padres e por ai vai.
      Mas o mais assustador de tudo é estudar o perfil psicológico de Lênin e dos geradores do poder revolucionário. A mente leninista é extremamente semelhante com a mente dos atuais esquerdistas brasileiros e o argumento dos "intelectuais revolucionários" tem um modus operandi muito semelhante aos militantes petistas, comunistas e coisas do tipo atualmente.
      Quando li sobre o gosto sanguinário de Lênin tremi, senti medo, mas mais medo ainda senti quando vi a atual presidenta discursar no congresso do PC do B com uma foto enorme de Lênin atrás de si. Penso que o Brasil está entregue às mãos de gente que admira um dos mais sanguinários líderes de todos os tempos e como diz o ditado popular "diga-me com quem tu andas que te direi quem és!". Honestamente, quem admira Lênin e sua trupe ou é ignorante ou é mal caráter.
      Tenho por certo que vários dos caros leitores me criticarão e dirão que sou ignorante e reaça. Bom, convido aos discordantes para um debate e apenas isto. Mas a diferença entre eu e essa gente que admira Lênin é que enquanto eu quero o debate de ideias, eles querem destruir quem se opõe.
      Que Deus nos proteja dessa gente!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Corta Pra Mim - Como um hífen se torna um ícone

    Terminei ontem a leitura do livro "Corta Pra Mim" do comunicador Marcelo Resende, falo comunicador porque ele vai muito além de um jornalista, Marcelo consegue falar aos seus espectadores com uma habilidade ímpar, comparável a um Silvio Santos e Alborguetti.
     Sei que este tipo de programa é altamente criticado por nosso círculo de "mentes inteligentes" que pensam além desse "olhar reacionário", mas não é isto que trago em questão.
     A grande questão aqui habita na qualidade de narrativa e no ritmo com que Marcelo Resende impõe às suas histórias, sem exagerar na ênfase e nem esquecendo de detalhes interessantes que de fato fazem suas histórias terem todo o sentido. A voz de Marcelo Resende ecoa na mente enquanto se lê cada história e não se consegue parar de ler, coisa para poucos.
     Não posso me estender para não contar as histórias sem atrapalhar àqueles que querem ler esta bela obra, sendo assim termino este post aqui. Tenho muita coisa para contar sobre aquilo que senti lendo este livro, mas aí já é outra história.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Luz dos olhos

Havia uma escuridão profunda em minha alma,
tudo em negritude e imprecisão.
Havia um peso em minhas costas,
mas na escuridão não via o que me pesava.
Havia uma prisão
e no escuro não via a saída.

Minha musa é uma Luz!
Luz que me mostra o caminho!
Luz que me tira da prisão!
Luz que me faz ver a realidade!

Sem minha Luz só vejo vultos.
Sem ela as sombras tomam conta de mim!

A Luz de seus olhos me fazem ver o que há de bom na vida

Minha Luz é um sol a raiar na meia noite!

E, apesar desses tempos de tempestade que passo,
minha Luz me faz poetizar!

Minha Luz brilha cada vez mais.
Quanto mais a vejo mais brilho e cor ela possui

e minha mente com isto intui,
que não quero para escuridão mais olhar!

O Mínimo de Olavo

    Terminei de ler recentemente "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota", do escritor e pensador Olavo de Carvalho. Longe de mim ter me tornado um Olavete, preciso aprender muito para isto, de modo que, ainda preciso romper com toda a parafernalha intelectual que eu tinha aprendido e apreendido até aqui.A obra que trata de um somatório de artigos publicados pelo referido autor, a qual, a gama de assuntos abordados chega a deixar nauseado qualquer um que não esteja disposto a um desafio intelectual.      De críticas ao petismo e a esquerda governante, à filosofia moral e metafísica da religião. A quantidade e qualidade dos textos chega a assustar os incaltos. De toda forma, Olavo abriu os meus olhos para um sem número de problemas no meu pensar que faziam de mim um idiota.
   Idiota na melhor ascepção da palavra, do grego idios "o mesmo que todos", pensava eu tal qual a maioria que não sai do lugar comum do pensamento trinomial Marx/Nietzsche/Foucault.
   Entender o mundo é extremamente mais complexo que tentar mudá-lo. Entender a profundidade do pensamento clássico, das construções do entendimento da metafísica da religião, das complexas questões lógicas da epistemologia e, sem deixar de lado, a ausência total de um debate público efetivamente plural e honesto.
    Entender o mundo é um desafio para quem está disposto à correr uma maratona e não uma corrida de 100 metros rasos. Exige resistência, persistência e boa vontade, sem jamais deixar de lado a profundidade do sentimento para com a espiritualidade.
    O Mínimo do Olavo é mais que aquilo que estamos acostumados a ouvir em nossas faculdades e nos debates dessa máfia de "pensadores" brasileiros.
    No fundo nada tenho a acrescentar a esta obra, apenas afirmo que esta leitura a cada dia tem se tornado mais e mais necessária.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Eu acordei, olhei para a rua e as pessoas andavam felizes, era dia de feriado. Feriados são a especialidade dos brasileiros, podemos ter milhares por ano sem se perguntar o porquê.
As crianças corriam atrás de uma bola, as senhoras conversavam nas janelas e alguns homens conversavam aos berros em botequim. Tudo ao som do que há de pior na música brasileira e eu me reverberava por dentro, andando de um lado para o outro do meu quarto. Tudo é tão vago, tão fútil....
Nesses devaneios sigo, sigo a não pensar. Não quero pensar. Desisto de pensar. Meu pensamento não significa nada e não muda o mundo. Não me aproxima de nada, não me leva a lugar nenhum. Caminho numa rua vazia, caminho na rua do pensamento que não significa nada.
Então prefiro não pensar, escrevo apenas essas linhas difusas, confusas, sem nexo, que jamais serão lidas por ninguém visto que meu blog não tem muita audiência.
Prefiro apenas colocar nessas linhas o que antigamente eu colocaria num caderno ou num diário.
Depois eu mudo de idéia e resolvo continuar blogando.
Existe esse verbo? Blogar?
Se não existe, determino agora o seu nascimento.

Eu blog

Tu blogas

Ele bloga

Nós blogamos

Vós blogais

Eles blogam

E eu encerro o post antes de encher o saco de quem me lê!

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Autonomia individual e princípios contratuais

      A ideia de autonomia privada surge na filosofia moderna através da máxima kantiana, a qual, um indivíduo é livre quando cria para si mesmo uma regra moral e a cumpre de maneira fidedigna. Apesar de ser oriundo de tempos imemoriais, posto que o assunto é debatido em textos bíblicos, na filosofia clássica e medieval.
     Para Kant a autonomia está profundamente ligada à moralidade e os indivíduos são agentes autônomos possuidores de capacidade plena de decisão, ou seja, quando o indivíduo é dotado de capacidade racional de encontrar o “melhor caminho”, ele invariavelmente o seguirá, caso oposto, ele não seria dotado de autonomia por não possuir capacidade moral ou racional para, efetivamente, decidir por si. Este conceito aproxima-se muito do conceito platônico de moralidade onde, o indivíduo sábio sempre fará o bem.
    O pensamento kantiano influenciou sobremaneira o pensamento jurídico do século XIX, pois a liberdade seria a essência de todo o direito privado daquele tempo, isto provavelmente, pelo rompimento com regimes totalitários e o desenvolvimento do pensamento democrático tal qual o conhecemos.
    Apesar da influência do filósofo de Königsberg o direito em sua letra crua, não teve nas legislações criadas posteriormente o mesmo rigor autônomo que aparentemente seria o fruto óbvio deste processo de pensamento, dando lugar a uma reinterpretação do filósofo e uma guinada mais conservadora ou mais coletivista.
    Um dos maiores problemas encontrados no pensamento kantiano é o entendimento que a autonomia individual está ligada a imperativos categóricos, onde em toda situação o mesmo seria aplicado, porém há uma diversidade heterônoma de vontades e interesses, tornando a liberdade de autonomia kantiana uma mera ideia filosófica inaplicável em situações práticas, logo na diversidade de metas a liberdade política torna a economia das autonomias algo impossível.
   Sendo assim, a ideia rousseauniana de um contrato social composto pela união das metas e a ideia habermasiana de consenso como determinante do funcionamento da logística das autonomias torna-se mais viável que o ideário kantiano, onde o Direito é uma aplicação externa de uma lei moral.
   Para Rousseau, há uma conexão entre autonomia dos cidadãos e autonomia pública, quase que criando em sentido lato sensu uma educação doméstica ampliada transformada em política pública, na qual há uma superposição do público sobre o privado.
   Já Habermas, entende que deve haver uma conexão interna entre autonomia pública e autonomia privada construída através do consenso entre os entes constituintes da sociedade construída, posto que deve haver uma tensão moderada entre ambas autonomias e não a sobreposição plena de uma sobre a outra. Até mesmo porque o indivíduo se constrói no processo de socialização e construção da linguagem e não por simples afetações genéticas, logo é fundamental que se harmonizem interesses dentre os entes públicos e privados.
   Para observar-se a aplicação deste debate na seara do Direito Contratual haverá de se observar alguns limites postos à autonomia individual que são instrumentais para a adequada compreensão, validade e possibilidade plena das normas deste instituto.
   Apesar se constituírem como limites à liberdade e autonomia individuais, estes princípios, tendem a garantir efetivamente a liberdade dos entes, pois, salvo em contrário haverá sempre uma superposição em desfavor do hipossuficiente em questão.
   O primeiro dos princípios é o dever geral de boa-fé, pois, “O dever geral de boa-fé traduz, inegavelmente, uma ideia de lealdade ou probidade que se pode relacionar, no plano dos negócios jurídicos, à pretensão de veracidade”. Logo, boa-fé tanto objetiva quanto subjetiva, servem como instrumento de manutenção da segurança contratual, pois sem ela os entes contratantes não podem ter nenhum alicerce que lhes permita contratar e ser contratado.
   Outro ponto é o dever de informar, este princípio “surge como um dever de promover as condições necessárias ao entendimento mútuo ou à compreensão, sem a qual o consentimento ofertado não se pode considerar autônomo”.
   Por fim, tem-se a noção de equilíbrio contratual à qual versa que dois entes que estabelecem entre si uma relação jurídica devem ter condições de arcar com todos os ônus e bônus relacionados com o contrato firmado. Ou seja, os entes autônomos em questão têm de possuir a plenitude de possibilidades de cumprimento material e formal das relações contratuais firmadas, independente da espécie de contrato e a forma contratada.
   Conclui-se esta resenha entendendo que o debate sobre os limites da autonomia individual ainda está em aberto e ainda precisa se desenvolver e as conclusões sobre este assunto ainda estão longe de um ponto final, porém na esfera dos contratos os limites já foram traçados.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Estou me tornando reaça

   Sim caro leitor, nunca pensei que escreveria isto, mas é verdade.
   A cada dia me sinto mais incomodado com as idéias coletivistas e socialistas pregadas em nossos cursos de ciências humanas, como se não bastasse, tenho achado estranha a postura da nossa juventude diante dos atuais protestos e, o que mais me incomoda, a forma que tratam àqueles que discordam.
   A argumentação é sempre a mesma, tudo muito fraco ideologicamente e para piorar idealista demais, não compreendendo questões práticas da economia, que queiramos ou não, move nossas existência social.
   Sim, nosso comportamento econômico move nossa existência social.
   Mas quem pensa assim não é reacionário? É o que dizem por aí...
   Se quem pensa assim é reaça e eu penso assim, logo sou um filho bastardo do grande Nelson, um olavete piorado, um inimigo do mundo, um membro da seita ponderiana.
   Não gosto muito de rótulos, mas estou sendo rotulado assim, nada posso fazer. Além de tudo, este texto mal escrito pra caramba pode ser meu atestado de óbito intelectual e a maior parte daqueles que me lêem vão sentir nojo de mim e, mutatis mutandis, ainda que eu mude de ideia carregarei este fardo para o resto da vida.
    Que culpa tenho eu de discordar dos rumos que os movimentos feministas e LGBT tem tomado?
     Sou a favor da causa em si, penso que toda forma de discriminação, machismo, sexismo e homofobia são um mal a ser extirpado do mundo, mas não penso que a luta esteja sendo feita da maneira adequada, posto que a militância destes movimentos está gritando ao invés de debatendo e dando razão aos felicianos de plantão.
    Que culpa tenho eu de discordar da política econômica do governo?
     Penso que alguma assistência haverá de ser dada para que possamos minimamente igualar as condições, mas da maneira que a economia brasileira vai em alguns anos teremos uma conta tão grande para pagar que não teremos outra saída senão cortar todo tipo de benefício governamental e aumentar tributos de uma forma ainda mais exorbitante.
     Que culpa tenho eu de enxergar nos ícones culturais da esquerda uma hipocrisia sem prescendentes?
     Vemos os ícones culturais que inspiraram a esquerda na noite dos tempos sendo mais cruéis e fascistas que todos os ícones do Partido Republicano dos EUA juntos. Não vou dar nomes para não ser mais odiado do que serei.
      Enfim, estou ficando cansado. Tudo está me cansando e, pelo visto, nos tempos loucos que vivemos, ser revolucionário rima muito bem com ser reacionário.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A melancolia como ente identificador de autenticidade

     Recentemente ouvi uma frase da filosofa Márcia Tibury, na qual ela dizia que, "pessoas inteligentes são melancólicas por pensarem demais", ou seja, todo indivíduo que se presta ao honesto exercício intelectual estará fadado a viver em fuga de seus próprios demônios pessoais, logo, não seguirá os parâmetros de felicidade que a sociedade impõe a seus pares.
      As pessoas que são vistas de cabeça baixa ou sem um sorriso formatado no rosto são logo vistas como pessoas depressivas, tristes e desagradáveis. Porém, há uma diferença abissal dentre depressão e melancolia. A depressão é uma patologia, há uma ampla literatura científica sobre o assunto e uma enorme diversidade de tratamentos para a mesma. Enquanto a melancolia é um estado de espírito que denota uma grande dificuldade do ser humano em lidar com questões internas ligadas à sua existência.
      Muitos argumentarão que "é melhor ser alegre que ser triste", porém qual é o preço desta alegria de plástico? Quanto custará, em termos existenciais e monetários, esse alívio para a compreensão de que a vida  não possui sentido algum e que decidir viver é apenas uma questão de escolha, visto que somos livres para dela nos dispor?
      O enfrentamento dos demônios que rondam o universo daqueles que resolvem, livremente, adentrar-se às suas entranhas existenciais é uma luta diária e aceitar que assim as coisas haverão de ser é o primeiro passo para identificar toda a autenticidade deste conflito existencial.
      Uma existência somente será autêntica quando o ser entra em conflito com todo o arcabouço que circula sua existência, sendo assim, é inevitável, que ao pensar nas questões que envolvem a vida, o indivíduo entre em estado de profundo pessimismo e, com isto, toda a tristeza que pode desembocar em um estado de melancolia.
       A melancolia é como uma infecção de garganta, vem aos poucos e ao se mostrar, deixa todo o corpo em estado de convalescência, logo, ela manifesta-se, dá seus sinais e diz ao indivíduo coisas muito importantes.
       Na Bíblia há uma passagem, especificamente no livro de Eclesiastes capítulo 7 versículo 2, no qual o autor nos diz, "Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração." esta frase indica algo interessante para a melhor compreensão da melancolia enquanto ente identificador de autenticidade para com a existência, visto que, a meditação sobre as questões do fim da vida e sua ausência de sentido são fundamentais para uma vida não alienada e mais lúcida, em mundo de felicidade fast-food.
     Sendo assim, estar melancólico não é um mau sinal, indica apenas que o ser em questão pensa a vida, pensa na vida e pensa sobre o que é a vida. Sem dúvida, pensar esse temas no mundo de hoje é uma grande provocação e uma atitude de mudança perante o mundo, além da geração de um novo ethos que não se abaixará perante as ditaduras publicitárias e as modas que nos sobrevêm.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Acordei cinza

    Depois de uma noite de sonhos intranquilos, acordei cinza. Não sei o que isto significa ao certo, mas eu estava nublado. Parecia Ouro Preto em dia de chuva. Este cinzentar me angustia, me deprime. Me pergunto por quais razões assim estaria, afinal minha vida anda  em bons eixos. Mas por que tem de haver uma razão lógica para eu estar assim? Por que deve haver uma razão científica para tal fenomenologia estranha e destituida de claros motivos?
    O fato é que estou cinza e isto enche minha verve literária, penso em fazer um conto, mas seria mentiroso atribuir a outrem o que comigo ocorre, penso em um poema, mas sou poeticamente um fracasso. Meus versos costumam ser um lixo literário, daqueles que fariam João Cabral tecer profundas críticas e fariam Bukowski vomitar de tédio. Sim, além de cinza sou um fracasso pós-moderno com pensamento antiquado e uma filosofia que não entendeu nada ainda.
    Penso mais um pouco e entendo porque os Black Blocks fazem o que fazem, porque os jovens de 68 fizeram o que fizeram e porque pessoas de classe média são as primeiras a enfileirar a luta por causas sociais que lhe são alheias. Fazem isto para não ficarem cinzentadas como eu.
   A falta de sentido na existência incomoda mais do que parece. Logo, lutar por algo, ainda que não se saiba ao certo o que, é melhor que sentir-se vazio por dentro. Ficar Black, verde ou vermelho é melhor que ficar cinza.
    Será?

    A falta de sentido na vida é algo que deve-se encarar com coragem, o medo dela faz com que escolhamos razões para nos justificarmos vivos. Mas seriam legítimas essas razões ou não passamos de Sísifos condenados ao maior de todos os vazios, independentemente da cor que escolhemos?
    Esta reflexão existencial não mudou a minha cor, parece até que a deixou mais forte.
    Talvez para melhorar eu deva deixar para lá. Comprar algo, curtir coisas no Facebook, ler piadas, trabalhar com mais afinco, rezar, jogar um jogo online, ouvir um podcast, sentir-me culto lendo algo complexo, sentir-me superior vendo um filme que eu não gosto e nem entendo. Ou talvez seja melhor ficar cada vez mais cinza para ver qual tom ficará em mim.
    Talvez...
    Na verdade não sou Gregor Samsa, sou apenas um estrangeiro em um mundo cada vez menos hospitaleiro para mim e até que o cinza me caiu bem.

domingo, 6 de outubro de 2013

Poemas de Charles Bukowski

     Baseado no site da revista bula, listo abaixo alguns poemas de um dos maiores escritores da língua inglesa:

o pássaro azul

(Tradução: Pedro Gonzaga)

há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você ?

então queres ser um escritor?

(Tradução: Manuel A. Domingos)

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
— devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.

quatro e meia da manhã

(Tradução: Jorge Wanderley)
os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões
e gatos sonhando com
minhocas,
e minhocas sonhando
os ossos
do meu amor,
e eu não posso dormir
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e eles vão procurar por mim
no estaleiro
e dirão:
“ele tá bêbado de novo”,
mas eu estarei adormecido,
finalmente, no meio das garrafas e
da luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como 40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.

poema nos meus 43 anos

(Tradução: Jorge Wanderley)
terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida—
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter um quarto.
…de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores , médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi…
e você se vira
para o lado pra pegar o sol
nas costas e não
direto nos olhos.

uma palavrinha sobre os fazedores de poemas rápidos e modernos

(Tradução: Jorge Wanderley)
é muito fácil parecer moderno
enquanto se é o maior idiota jamais nascido;
eu sei; eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas;
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou —
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim—
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando a saída — portanto saia logo
e desista das
poucas preciosas
páginas.

outra cama

(Tradução: Pedro Gonzaga)
outra cama
outra mulher
mais cortinas
outro banheiro
outra cozinha
outros olhos
outro cabelo
outros
pés e dedos.
todos à procura.
a busca eterna.
você fica na cama
ela se veste para o trabalho
e você se pergunta o que aconteceu
à última
e à outra antes dela…
é tudo tão confortável —
esse fazer amor
esse dormir juntos
a suave delicadeza…
após ela sair você se levanta e usa
o banheiro dela,
é tudo tão intimidante e estranho.
você retorna para a cama e
dorme mais uma hora.
quando você vai embora é com tristeza
mas você a verá novamente
quer funcione, quer não.
você dirige até a praia e fica sentado
em seu carro. é meio-dia.
— outra cama, outras orelhas, outros
brincos, outras bocas, outros chinelos, outros
vestidos
cores, portas, números de telefone.
você foi, certa vez, suficientemente forte para viver sozinho.
para um homem beirando os sessenta você deveria ser mais
sensato.
você dá a partida no carro e engata a primeira,
pensando, vou telefonar para janie logo que chegar,
não a vejo desde sexta-feira.


um poema de amor

(Tradução: Jorge Wanderley)
todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.
suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.
sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar — eu estava ocupado
com coisas maiores.
mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só um
aprendiz.
sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra. sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.
essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.

já morreu

(Tradução: Pedro Gonzaga)
sempre quis transar com
henry miller, ela disse,
mas quando cheguei lá
era tarde demais.
diabos, eu disse, vocês
sempre chegam tarde demais, garotas.
hoje já me masturbei
duas vezes.
não era esse o problema dele,
ela disse. a propósito
como você consegue bater
tantas?
é o espaço, eu digo,
todo o espaço entre
os poemas e os contos, é
intolerável.
você deveria esperar, ela disse,
você é impaciente.
o que você pensa de céline?
perguntei.
queria transar com ele também.
já morreu, eu disse.
já morreu, ela disse.
importa-se de ouvir uma
musiquinha? perguntei.
pode ser legal, ela disse.
dei-lhe ives.
era tudo que me restava
naquela noite.


Encurralado

(Tradução: Pedro Gonzaga)
bem, eles diziam que tudo terminaria
assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca
da palavra
ouvindo os passos
na escuridão, volto-me
para olhar atrás de mim…
ainda não, velho cão…
logo em breve.
agora
eles se sentam falando sobre
mim: “sim, acontece, ele já
era… é
triste…”
“ele nunca teve muito, não é
mesmo?”
“bem, não, mas agora…”
agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que há muito já não
frequento.
agora
bebo sozinho
junto a essa máquina que mal
funciona
enquanto as sombras assumem
formas
combato retirando-me
lentamente
agora
minha antiga promessa
definha
definha
agora
acendendo novos cigarros
servido mais
bebidas
tem sido um belo
combate
ainda
é.


confissão

(Tradução: Jorge Wanderley)
esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
hank!
e hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Uma sensação estranha

Me sinto estranho
estranhamente!
Estranheza de sensação
estranho jeito de sentir
sentindo a estranheza da estranhidão!

Nada pode ser mais contraditório que os sentimentos humanos

Sou humano demais,
sou estranho demais!
Minha estranheza me humaniza,
quem pensa que está tudo bem, se desumaniza!

A vida é estranha
Quem acha a vida doce demais
não vive a vida em legitimidade!

Me sinto estranho, mais estranho que este poema!
Mas não lhe conto o motivo!

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Namoro uma poetisa


Versos,
prosas,
rimas,
estruturas,
sonetos,
canções
e tudo aquilo que o valha!
                                               Descobri que namoro uma poetisa
                                               Seus versos são duros,
                                               Porém livres!
Sua métrica é difusa
Porém firme!
                Seus sentimentos de jovem moça
                São versos de mulher madura
                               Uma Florbela Espanca versando em português
Uma Clarice em versos sem medo
                Uma Adélia que ainda não acredita em seu verso!
Descobri que namoro uma poetisa

Sou o mais feliz dos homens!

terça-feira, 30 de julho de 2013

Por favor não se depile tanto

     Vivemos tempos de excessos e isto se aplica à higiene íntima. A cada dia as mulheres tem buscado uma "perfeição" inalcançável e dentro desta política corporal está o cultivo de hábitos que sequer fazem bem ao corpo e tampouco são esteticamente belos.
      Vendo as musas do cinema brasileiro de antigamente vejo o quanto as mulheres de hoje estão perdendo tempo e criando para si problemas inexistentes. Afinal, qual o problema de uma vagina mais peludinha? Não me venha com este papo de higiene e de saúde, é balela.
     Qual o problema em ter umas estrias aqui e ali, uma ruga acolá, uma gordurinha estrategicamente localizada ou de ser magrelinha. Tudo isto te torna real e eu gosto de mulheres reais e não estas panicats produzidas em série nas academias, à base de uma alimentação questionável e de suplementos alimentares contraindicados.
       O pior é que este comportamento feminino gera no homem a sensação de que ainda domina, e faz com que toda e qualquer economia do corpo seja voltada para satisfação de suas taras e desejos profanos.
        Há necessidade de que as mulheres se olhem no espelho e vejam que são bem mais do que aquilo que estão vendo, que um homem pode amá-la e admirá-la por tantas coisas que transcendem aos austeros sacrifícios do "corpo perfeito".
        Mulheres, por favor, não se depilem tanto. Não queiram ser tão limpinhas e perfeitinhas. Sejam o que quiserem! Afinal, quem decide no fim sempre é a mulher, tanto para a liberdade, quanto para a escravidão!
        Viva Claudia Ohana!

Seja menos homem! Vai te fazer bem

       Historicamente falando, criou-se o mito do homem, da masculinidade, da virilidade, delimitando aquilo que é a masculinidade masculina (sim, isto é um puta pleonasmo). Com isto deixamos o feminino à margem daquilo que somos. Por fim, criamos a ideia de uma mulher que é o nosso oposto. Se o masculino é objetivo e direto, o feminino é sentimental e dá rodeios.
        Porém, não nos tocamos que o feminino é mais interessante que o masculino, mais rico, profundo e lindo. Não aprendemos que elas são muito melhores do que a gente, são mais criativas, se constroem todos os dias, superam todo tipo de moléstia e, além do mais, sabem enfrentar dores enormes mensalmente e dão a luz sob uma pressão monstruosa.
        Dada a minha enorme admiração pelas nossas Evas queridas comecei a me aproximar de mais mulheres, com o intuito de aprender mais sobre o universo feminino. Tornei-me amigo de várias e acabei por iniciar um namoro com uma feminista arretada, daquelas estilo Dona Beauvoir.
        Me pareceu que fiz bem, tornei-me mais sensível, comecei a me vestir melhor, até de unhas e maquiagem estou começando a entender, passei a querer ter os meus acessórios, sim, passei a usar pulseiras cordões e anéis, vi que o rosa possui várias tonalidades e que os gays também são uma excelente companhia, aliás, como é belo um casal lésbico...
        Tudo ia bem até o dia em que minha amada namorada feminista me chamou de bicha! Sim, ela me chamou de bicha! Como ela foi cruel!
        Fiquei com raiva, o ogro que jazia adormecido voltou à tona, meus modos machistas de outrora ganharam de novo terreno em minha vida e quis mudar meu jeito.
        Eu que já estava começando a ver a beleza que um homem pode ter, comecei a voltar a ser o velho machista de sempre, até que me toquei e vi, minha namorada estava me elogiando.
        O que a conquistou foi a minha capacidade de olhar para dentro da alma dela, como nenhum outro homem havia olhado, foi o fato de ser diferente de verdade dos outros homens, dos quais, ela havia convivido, foi a história de me transformar, assim como se transforma toda mulher, em cada fase da vida.
        Ela me queria menos homem e mais Ser. Afinal o masculino e o feminino não passam de construções, mas o ser é aquilo que permanece, entendi que não há uma essência masculina ou essência feminina e sim uma existência, existência esta que precede a qualquer essência que queiram nos auscultar e impor.
        Minha Beavouir me ensinou que ela sofre por causa de homens e mulheres machistas e que precisamos voltar à origem e nos reconstruir enquanto seres humanos. Quem sabe me torno um Sartre para esta Simone?
        Portanto aqui vai meu conselho, SEJA MENOS HOMEM e se quiser me chamar de gay por causa disto, chame. Isto não mais me ofende, mas me é motivo de orgulho!

       

Ostentar o quê? - Uma etiqueta desfavorável

   Vendo o programa A Liga, no qual eles tiveram como tema o funk ostentação, fiquei a refletir sobre as razões que levaram o mesmo a ser um sucesso de público e o que tem feito as pessoas se sujeitarem a ouvir estas músicas que não são lá nenhuma bachiana acompanhada de uma bela poesia.
    Afinal, as mulheres, meninas em sua maioria, são tratadas tal qual objetos de usufruto mediante ao fetiche provocado pelo "patrão", homem este que ostenta ouro, belos carros, bebidas caras e uma vida de completa loucura. Não é muito diferente dos roqueiros de antigamente, alguns eram (outros ainda são) extremamente bizarros e tratam as mulheres da mesma forma, senão pior, pois acrescentam o elemento violência.
    O cerne da questão está no fetiche provocado pelo ouro e, principalmente, pela marca. Não importa o produto em questão, suas utilidades, características e atributos individuais, mas sim a marca, a qual o produto encarna em sua fronte. Este fenômeno tem sido visto e criticado por muitos intelectuais e estudantes de classe média, mas o que não se vê é que ele reflete aquilo que efetivamente somos enquanto sociedade.
   Qual a diferença do funkeiro de ostentação para a mulher rica (aquela do reality show da Band)?
    Existem diversas, vamos enumerar.
    Primeiramente, o funkeiro descobriu nesta manifestação artística uma forma de fugir de uma realidade da qual não lhe é favorável, ou seja, escolheu a arte às drogas ou à criminalidade. Sim, ele escolheu a arte, ainda que seja esteticamente de gosto questionável, é tão legítima quanto uma música da Marisa Monte.
    Em segundo lugar, estes artistas ainda sofrem um enorme preconceito perante a classe média esnobe do país. Todos que tiveram a sorte de ler Dostoievski e Virginia Woolf ainda na juventude, de todos que já puderam assistir a um concerto de música clássica, de todos que sempre gozaram da possibilidade de acesso à cultura de alto nível.
    Porém, apesar destas inúmeras oportunidades, não as aproveitam como poderiam e nada produzem ao contrário dos referidos artistas do funk, que apesar de seu linguajar deficiente quanto a norma culta da língua e suas noções rudimentares de harmonia e ritmo, produzem uma arte que manifesta seus desejos e suas pretensões enquanto seres humanos.
     O grande problema ao fim de tudo é que somos uma sociedade que idolatra o consumo, que faz disto um modus vivendi, que valoriza o ter em detrimento do ser e o funk ostentação é apenas mais uma das muitas manifestações dessa devastada sociedade do espetáculo.
      Estou certo de que se Adorno estivesse vivo estudaria o funk ostentação e entenderia sua estética. Estou certo que este modo de fazer arte é um retrato fidedigno de uma geração perdida, mais perdida que o "Eu etiqueta" de Drummond.
EU ETIQUETA
(Carlos Drummond de Andrade)

Em minha calça está grudado um nome 
Que não é meu de batismo ou de cartório 
Um nome... estranho. 
Meu blusão traz lembrete de bebida 
Que jamais pus na boca, nessa vida, 
Em minha camiseta, a marca de cigarro 
Que não fumo, até hoje não fumei. 
Minhas meias falam de produtos 
Que nunca experimentei 
Mas são comunicados a meus pés. 
Meu tênis é proclama colorido 
De alguma coisa não provada 
Por este provador de longa idade. 
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, 
Minha gravata e cinto e escova e pente, 
Meu copo, minha xícara, 
Minha toalha de banho e sabonete, 
Meu isso, meu aquilo. 
Desde a cabeça ao bico dos sapatos, 
São mensagens, 
Letras falantes, 
Gritos visuais, 
Ordens de uso, abuso, reincidências. 
Costume, hábito, permência, 
Indispensabilidade, 
E fazem de mim homem-anúncio itinerante, 
Escravo da matéria anunciada. 
Estou, estou na moda. 
É duro andar na moda, ainda que a moda 
Seja negar minha identidade, 
Trocá-la por mil, açambarcando 
Todas as marcas registradas, 
Todos os logotipos do mercado. 
Com que inocência demito-me de ser 
Eu que antes era e me sabia 
Tão diverso de outros, tão mim mesmo, 
Ser pensante sentinte e solitário 
Com outros seres diversos e conscientes 
De sua humana, invencível condição. 
Agora sou anúncio 
Ora vulgar ora bizarro. 
Em língua nacional ou em qualquer língua 
(Qualquer principalmente.) 
E nisto me comparo, tiro glória 
De minha anulação. 
Não sou - vê lá - anúncio contratado. 
Eu é que mimosamente pago 
Para anunciar, para vender 
Em bares festas praias pérgulas piscinas, 
E bem à vista exibo esta etiqueta 
Global no corpo que desiste 
De ser veste e sandália de uma essência 
Tão viva, independente, 
Que moda ou suborno algum a compromete. 
Onde terei jogado fora 
Meu gosto e capacidade de escolher, 
Minhas idiossincrasias tão pessoais, 
Tão minhas que no rosto se espelhavam 
E cada gesto, cada olhar 
Cada vinco da roupa 
Sou gravado de forma universal, 
Saio da estamparia, não de casa, 
Da vitrine me tiram, recolocam, 
Objeto pulsante mas objeto 
Que se oferece como signo dos outros 
Objetos estáticos, tarifados. 
Por me ostentar assim, tão orgulhoso 
De ser não eu, mas artigo industrial, 
Peço que meu nome retifiquem. 
Já não me convém o título de homem. 
Meu nome novo é Coisa. 
Eu sou a Coisa, coisamente.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Brincando com a morte - Um lugar para Saramago e Bukowski

     Brincar com a morte é uma atividade para gênios,pelo menos quando o indivíduo o faz de modo artístico, não falo das irresponsabilidades cometidas diariamente por indivíduos de fraco poder cognitivo.
     Em As Intermitências da morte, o gênio José Saramago trata a morte como um ser passional, que apesar de seu quase infinito poder, possui crises existenciais e, até mesmo, morais e enfrenta uma humanidade pouco preparada para encontrar-se consigo.
     Saramago inicia sua história abordando os problemas sociais decorrentes de uma decisão da morte. Sim a morte é uma pessoa, embora deva neste caso ser tratada como morte e não Morte, visto que a mesma pede isto durante a história. Fica clara a função social da morte em uma sociedade que ainda não aprendeu a lidar com os limites da vida e a ser solidária com as mazelas alheias.
     Posterior a este brilhante relato, há o momento de dilema "profissional" da morte ante a uma situação, a qual, não descreverei para não atrapalhar a leitura do sensacional romance do gênio português. Os desdobramentos impressionam e a morte torna-se uma boa amiga e alguém à qual tem-se vontade de se encontrar, abraçar e acariciar, pois a mesma precisa de ser entendida e amada, tal qual uma mulher que se encontre em situação limítrofe de vida.
     Já o gênio da subliteratura Charles Bukowski tem um encontro sui generis com a morte em sua novela PULP, onde a mesma se apresenta a ele como uma cliente e lhe dá uma missão sem o menor sentido. A missão é aceita sobriamente pelo alter ego do velho Buck que enfrenta bravamente os problemas relacionado à missão e obedece a cada ordem da Dona Morte.
     Ambos tratam da morte com humor, mas também com o respeito que a mesma merece, pois se há alguém que, invariavelmente encontraremos é a Dona Morte, seja sob a forma cadavérica, seja como um belo anjo, seja como a gorda vista por Proust, seja como uma bela mulher, seja como um imenso silêncio. Preparemo-nos portanto em vida, seja lá o que isto quer dizer.

Ela está digitando uma mensagem

Ela está digitando uma mensagem,
um SMS que revela sua alma.
Ela está a digitar letras sem sentido e
incompreensíveis a seu destinatário.
A mensagem fala de si
fala de mim,
fala dele,
fala sobre o infinito.
A mensagem fala de saudade,
fala do céu,
do inferno,
da rara calma do abraço,
da solidão deste lapso de instante.
Esta mensagem irá a seu destinatário
este destinatário sou eu.
Este eu que não sabe ser.
Este ser que não sabe ser eu.

Ela está digitando uma mensagem,
poderia escrever uma carta,
uma crônica,
uma canção,
um poema.
Ela escolheu empobrecer seus sentimentos.
Ela escolheu não dizer nada,
quando suas palavras poderiam dizer tudo,
quando seus mistérios poderiam ser de fato interessantes.

Ela está digitando uma mensagem
e não sabe se quem vai receber a quererá.
Ela está digitando uma mensagem
e a vida perde-se no lapso do envio.
Sua alma é refém de créditos,
do sinal da operadora,
do bom funcionamento do celular alheio,
da capacidade cognitiva de seu leitor.

Ela está digitando uma mensagem
e isto não significa nada!

terça-feira, 23 de julho de 2013

Acordar do sonho

Acordar do sonho,
Nem  sempre é uma boa idéia
As vezes somente isso da sentido para viver
Acordar
O sonho somente pode durar uma noite!
O amanhecer é o conflito com a realidade!

Eram 19:00 horas e eu ainda estava dormindo, dormia da soneca que tirava depois de meu almoço, não era um hábito meu, mas naquele dia estranhamente decidi deixar os hábitos de lado e resolvi dormir. Sonhava, sim eu sonhava, sonhava coisas tão estranhas que não as revelo por nada, não que sejam segredos, mas pelo estranho prazer que aquele estranho sonho me causava. Meu irmão entra no quarto por um motivo qualquer e lá se vai o sono. Não que fosse ruim o fato de acordar, mas por que nem sempre o melhor que se faz é acordar. As vezes a vida vivida no sono é mais prazerosa e ao acordar finda o prazer, nem sempre acordar faz bem, principalmente quando se tem uma vida tão entediante e previsível. Não havia solução, teria que me levantar e viver a vida.
De um salto me levantei não que este salto tenha sido um salto tem quem tem disposição e o faz com força e vigor, pois pesando 140 Kg  não é qualquer um que consegue sair da cama. Pensava nela, seu olhar me penetrava, me fazia sentir melhor e pior ao mesmo tempo e toda hora.
Existem pessoas que nasceram apaixonadas. Essas pessoas nem amam tanto a pessoa amada, mas amam a paixão. O ato de se apaixonar, as sensações que a paixão provoca o arrepio na espinha após o beijo e o toque, o sabor eterno dos lábios da amante, os versos bregas compostos, as declarações exageradas de amor, os elogios infindáveis a amada, o abraço que parece um pedaço do eterno, a dança dos corpos que sem música fazem valer todo o sentido da vida, os infinitos momentos da saudade e a alegria do reencontro. Tudo isso parece ser um universo particular para quem ama, não importa o amado importa é o amor. Existem pessoas que sabem apenas amar o amor e como amam esse amor. Amam como se tudo se reduzisse àquele momento. Esse amor é uma chama eterna enquanto dura e quando se apaga deixa o maior vazio da existência, esse vazio é tão grande, tão infinito que muitos adoecem e morrem de amor. Amar demais é um problema pior que não amar. Quando não se ama vive-se o vazio da vida e o indivíduo sabe que esse vazio é a falta de um amor. Mas quando se ama demais, o vazio da vida se enche, mas se enche de uma bolha, uma bolha que quanto mais cresce, mais bela fica. Porém bolhas explodem e quando explodem se transformam em nada. Nada e mais nada. O vazio é enorme, pois a beleza perde o belo, o colorido perde a cor, a música perde o som e a poesia perde os versos. A vida fica concatenada numa teia de dores que somente se encerram encontrando um novo amor. Amor esse que tem que ser maior que o anterior, tal qual o viciado que a cada vez que se aprofunda em seu vício, precisa de mais e mais e nunca se tem por satisfeito. Amar de mais é um problema, principalmente quando apenas o apaixonado ama e esse não é amado. Estranho isto!
         Por que será que justo eu tinha que padecer deste mal. Busco um CD, mas desisto, quando estou assim sempre ouço musicas românticas em inglês, não falo inglês, portanto o que eu sinto ao ouvir a canção é o que me basta para entender seu significado. Pensei num filme, mas escolheria de novo ver Closer - Perto Demais, então desisti, me sentei ante a TV e deixei aquilo me hipnotizar alguns minutos.
A TV me deixa num estado de tédio maior ainda, penso em sair de casa, arejar a cabeça, vou ao banheiro e me olho no espelho, vejo alguém com a barba por fazer, cabelo grande precisando ser aparado, uma horrível olheira e ninguém ao meu lado para dizer que me amava mesmo assim. Sinto saudades dela.
       A poucas semanas atrás não a conhecia e hoje não sei como vivi até agora sem ela e o pior é que não sei se conseguirei sem ela.
      Parece bobagem, caro leitor. Parece conversa de adolescente, e com minha idade deveria parar com isto. Mas a vida me provoca, meu coração me provoca e me prega peças as quais eu sempre caio. Então entro em devaneios, o coração acelera e somente se acalma quando me ponho a escrever poemas. Só que ultimamente está tudo muito estranho, não consigo fazer nenhum poema. Desde que a vi somente consegui ajudar a compor a letra de uma música para a banda de um amigo meu. E o pior estou a escrever este relato, por não conseguir mais conter em mim o que há em mim.
      Caro leitor, você deve querer saber quem é esta tal pessoa de quem tanto falo, mas te peço paciência, pois estou antes a desabafar minhas emoções, meu sentimento de culpa é tão grande, minha mente vagueia tanto que não sei o que dizer. Minha alma está a construí-la em minha mente. Estou muito emocionado. Isto nunca lhe aconteceu? Não? Sorte sua.
      Sorte sua, pois e azar meu, pois provavelmente você vai fechar o livro e comentar que ele é péssimo, possui um estilo muito estranho e que o autor não tem talento. Pior ainda se você for crítico literário, vai dizer em algum jornal, revista, site ou blog que este livro é péssimo e vai atrapalhar as vendas. Aí, para piorar a situação, o editor vai cobrar do meu agente ou de mim mesmo uma explicação e talvez nunca mais publiques nada meu. Mas que fazer?
     Certa vez, li, não me lembro aonde, que a vida dos escritores é em geral sem graça e para fugir de seus mundos infelizes resolvem escrever para assim se sentir feliz. Quero provar que isso não resolve. Quando se está mal de amor nada pode trazer a vida de volta. Não há poesia, poema, crônica ou conto que devolva a paz, a não ser que eu escreva romances eróticos ou seja o Dan Brown. Esses livros ocupam tanto a cabeça, que devem dar muito trabalho para o escritor e então não há como pensar na realidade.
     Meu livro está parado não consigo dar continuidade ao romance que meu agente pediu, mas que fazer? Sofro de amores! Sofrendo de amores não posso fazer um romance, posso apenas desabafar minhas dores e contar como foi, é e como gostaria que fosse minha história de amor.
     O telefone toca, não quero conversar com ninguém, queria que caísse na secretária eletrônica, (benditas máquinas), mas meu irmão atende, torço para que não seja para mim e era.
      - Seu agente! - Grita meu irmão.
      - Já vou! – Respondo seco.
     Como gostaria de ter terminado meu mestrado e me tornado professor universitário, não sabia que ser escritor poderia ser tão estranho, difícil e frustrante. Passei pela faculdade a procurar palavras, estilos, formas de melhor escrever e veja o que me tornei o autor do “Pior livro do ano”, segundo a Folha Nacional.     Segundo eles, “o livro é chato e sem estilo, ele se baseou no que há de pior na literatura”. E para piorar a situação, vendeu muito pouco, apesar da publicidade que a editora investiu. Enfim atendo o telefone.
     - Você precisa terminar seu novo livro logo Francis. A editora diminuiu o prazo para o próximo mês, pois segundo eles, depois desse fiasco que foi seu livro precisamos lançar algo bom logo, pois as perdas com seu último livro foram imensas, você precisa se recuperar se não a editora não vai publicar mais nada seu! – Disse ofegante e num tom ameaçador.
     - Gregório eu estou cansado dessa cobrança! Não se faz um bom livro como se faz uma carta ou um relatório de vendas. – Respondi de pronto para não parecer acuado, embora estivesse.
    - Francis, você teve muito tempo para escrever seu último livro e olha o que está escrito no Global! – Disse como se fosse uma metralhadora – “Francis Solto escreveu um livro obtuso e sem o menor sentido e com estilo pobre. Foi uma péssima estréia para quem a Editora W&U dizia ser a revelação da literatura brasileira”
    - Este livro pode até não ter ficado bom, mas não posso me guiar pelas palavras dos críticos. Quando publiquei meu primeiro livro o “Almas de Aço”, fui um fracasso nas vendas mas os críticos gostaram!
   - Gostaram porque você publicou por uma editora pequena e seu livro foi uma surpresa naquele momento, ninguém esperava nada de você. Fato agora é que você publica pela W&U e precisa terminar logo.
   Gregório desligou o telefone na minha cara e fiquei a olhar para aquele aparelho desanimado, que me restava fazer?
    Portanto caro leitor, como não consegui continuar o outro livro que eu estava fazendo vou escrever minha história. Torço para que este livro ao menos prenda a sua atenção até o fim. Caso não consiga te peço gentilmente não fale mal dele, pois outro fracasso a minha carreira vai ficar comprometida.
   Segue o romance propriamente dito.

Capítulo 1 
Fui parar em Ouro Preto, numa dessas coisas que a gente faz sem pensar. Vi uma reportagem sobre o barroco mineiro e larguei a correria de São Paulo para passar um fim de semana. Meu irmão é engenheiro e mudou-se para cá quando ele foi fazer faculdade de engenharia geológica. Logo que terminou a faculdade comprou um kitnet e passou a morar sozinho nesta cidade tão acolhedora.
Vim para passar um fim de semana, mas fui obrigado a ficar. Estava sem dinheiro e o aluguel estava vencendo, gastei minhas economias na publicidade de meus livros, como não tive retorno tive que pedir asilo ao meu irmão. 
Ele possui um bom emprego numa mineradora da região e me emprestou algum dinheiro, mas somente pude pagar o aluguel de desocupar meu antigo apartamento. O locatário se cansou de meus atrasos e me mandou tirar minha mudança para que ele pudesse alugar para alguém que “valesse a pena”. Não possuía muito, uma cama, uma mesa de escritório, um pequeno armário, onde ficavam minhas poucas roupas e um laptop meio velho, mas que por uma sorte imensa nunca me desamparou.
Sei que incomodo na casa de meu irmão, mas ele nada diz, sabe que se não puder contar com ele não poderei contar com mais ninguém. Perdemos nossos pais a 7 anos e não tenho muitos amigos, além do mais ele é um dos poucos que ainda acredita em meu talento como escritor.
- Os ares ouropretanos lhe farão bem! – dizia ele com um sorriso no rosto.
- Assim espero Felipe! Assim espero! – dizia eu sempre.
Porém mal sabia que encontraria aqui o meu desgosto com o amor.

Ética protestante e a ideologia do atraso brasileiro

O trabalho de Jessé de Souza busca uma análise do atraso brasileiro, tanto em sua economia como em suas instituições partindo da visão weberiana de modernidade ocidental que tem como base o ascetismo protestante calvinista. Por fim, busca também o entendimento das razões do atraso brasileiro pelo entendimento de suas raízes históricas coloniais.
O pensamento weberiano é um bom ponto de partida para essa análise, pois soube como poucos, estabelecer bases solidas de uma teoria onde é possível compreender uma estrutura social em relação à fenomenologia econômica. Pois seria o fenômeno religioso um profundo influenciador das ações humanas, bem como seu processo de racionalização. O que, indubitavelmente, influenciaria no costume, no trabalho e na moralidade.
Para Weber, a sociedade ocidental houvera atingido um ponto de mais alto da racionalidade, tendo como base a ação racional, tendo o protestantismo ascético sua manifestação principal no âmbito da religiosidade. A sociedade ocidental dera um passo adiante, superando o animismo e criando um grau maior de abstração em relação às outras sociedades de seu tempo.
Essa nova concepção religiosa dera mais ênfase à ética que aos rituais, criando um tipo religioso de leis e moral mais próximas de uma lei prática e cotidiana. O que faria dos indivíduos mais racionais e mais comprometidos com a vida a vida terrena.
Este indivíduo se preocuparia mais com ações a médio e longo prazo e menos com o prazer imediato, mais preocupado com suas relações com as pessoas e menos com suas relações com divindade.
Em seu livro A ética protestante e o espírito do capitalismo, Weber identifica duas formas de protestantismo, o emocional e o outro racionalista e individualista. Este último teria predominado na Inglaterra e nos Países Baixos. Para ele nem a revolução francesa que causou tanto alvoroço, teria mudado tanto como a mudança de mente causada pela reforma protestante calvinista.

1- O protestante e a nossa ideologia do atraso

      No final do século XIX, o Brasil dava seus primeiros passos em direção a uma formulação de uma sociedade e o EUA caminhava para se tornar uma das maiores potencias do mundo.
     Qual seria a razão dessa disparidade?
     Segundo Sergio Buarque de Holanda, nossas raízes culturais são o oposto à cultura protestante. A mentalidade brasileira é avessa ao associativismo racional típico dos protestantes. A cultura brasileira teria herdado um individualismo amoral, herdado da colonização.
    “A falta de vínculo associativo horizontal, que possibilite as constelações de interesses de longo prazo, passa a ser percebida como a causa fundamental do nosso atraso social.” (Sergio Buarque de Holanda – As Raízes do Brasil).
     O filho da nossa colonização teria uma mentalidade, personalista, que busca prazeres imediatos e que não pensam na comunidade e em atitudes de longo prazo. Ao contrário do protestante colonizador ingleses, que busca o bem comunitário e pensa em longo prazo.
    Porém existem contradições na tradição protestante, segundo Moog a superioridade econômica protestante ascética não implica em superioridade em todos os aspectos da vida. Ele vê que existe uma incompatibilidade entre puritanismo e fraternidade, exemplo disto seria o racismo explícito da cultura yankee. Há um reducionismo moral, como a redução de todas as qualidades a uma lógica quantitativa.
   Portanto a idéia de atraso pode ser relativizada, pois as exigências de igualdade e bem-estar social transcendem o nível econômico. As necessidades de igualdade econômica têm sido somadas à necessidade de reconhecimento de diferenças, reconhecimento este que vai além de cotas e benefícios monetários como compensação das agruras vividas, mas sim um questionamento sobre o modelo de desenvolvimento escolhido por nossa sociedade.
   É fato que o país possui enormes contradições e muitas dessas contradições possuem conexão com a formação da sociedade e sua colonização. Mas, também é fato que desenvolvimento capitalista não pode ser o absoluto indicador do desenvolvimento de um país.

O ingresso

Antônio se apressava, precisava andar, correr, ser o mais rápido possível, estavam acabando os ingressos para o espetáculo que ele tanto esperava. Era a ultima apresentação daquela companhia em sua cidade. Foram dez apresentanções de Hamlet, era a última naquela cidade, Antonio teve várias chances mas ele nunca foi organizado, assim como todo brasileiro (quase todos) deixou tudo para a última hora.
Em sua casa brigou com o irmão pois precisava de tomar seu banho, brigou com sua mãe, por não ter agilizado o jantar, brigou com seu pai … , por alguma razão qualquer que nem Antônio se lembrava. Só sabia que se perdesse o espetáculo alguém seria responsabilizado.
Antônio nunca foi muito bom em assumir os próprios erros, isso parecia intranhado em sua personalidade. Certa feita, quando era ainda criança foi reprovado em Língua Portuguesa e ele teve o disparate de por a culpa na colonização portuguesa. Dizia ele “se fossem os ingleses as coisas seriam diferentes”, é claro que ninguém o levou a sério e as palmadas o esperavam em casa.
O horário da peça estava próximo, o ônibus de Antônio estava lotado, o aperto foi tanto que desceu em seu ponto totalmente amarrotado, parecia que sua camisa desconhecera o que era um ferro de passar.
Mesmo assim foi correndo em direção ao teatro, bufava, não era acostumado a exercícios físicos. O teatro crescia na direção de Antônio, sua alma era invadida por uma ansiedade antes inexplicada.
Na bilheteria, fitou aos olhos da moça que vendia os ingressos e sem nenhuma palavra, gesto ou som recebeu da moça da bilheteria uma belo sorriso.
- Moço, como o senhor é sortudo, é o último ingresso!
- Quanto é? Respondeu Antônio em uma grosseria e frieza digna dos mais insuportáveis homens, sendo capaz de silenciar o sorriso da moça da bilheteria.
- 30 reais. Respondeu a moça descepcionada com a grosseria de Antônio.
- Não eram 15? Retrucou Antônio
- Somente para quem possui carteirinha de estudante. Retrucou a moça louca para que Antônio desistisse de ver a peça.
- Isso é um roubo! E Antônio paga o ingresso indignado por ter deixado sua carteirinha em casa, mas como é de seu feitio reclamar de tudo e todos foi ao final da fila e esperou.
Esperar, eis um ato que o ser humano não constuma ser muito eficaz. Antônio era pós-graduado em reclamar de filas de espera. Também pudera, para tudo ele enfreta filas, para pegar o ônibus e o metrô, para almoçar no PF próximo ao trabalho, na fila da fotocopiadora para copiar os papéis em seu trabalho, para pagar as contas do escritório de contabilidade em que trabalha. Sua vida é uma fila.
Antônio, aproveitava suas filas para ouvir música, era apaixonado com bandas de rock alternativo e progressivo. Ouvir Led Zepelin é para ele um hábito quase que religioso. Só que naquela fila estava sem nada para ouvir senão a buzina dos carrros e o murmúrio de pessoas iguais a ele que são tão impacientes quanto ele ou então piores. Essas pessoas constumam ser profundamente irritantes, certamente a grande maioria só estava ali por causa do galã de TV que faria o Hamlet.
A fila não andava, Antônio estava desesperado, se indignava, cerrava os pulsos, suava frio, roía as unhas, lia repetidas vezes o que estava escrito no ingresso, no cartaz e nas placas próximas. Seu pensamento divagava em direção ao nada até que seu pensamento é interrompido.
Um homem distinto se achega, trajava um terno preto simples com uma camisa branca e um sorriso largo no rosto, sua alegria era tão contagiante que ele seria capaz de fazer rir os mais desgraçados  na vida.
- Boa tarde! - Comprimenta Antônio e calmamente se achega atrás dele na fila
- Boa tarde! - Antônio responde com sua aspereza peculiar
- Que bom que chegamos a tempo – diz o homem ignorando a aspereza de Antônio – queria muito assistir essa peça, comprei os ingressos antecipados, mas me atrasei no caminho … , que bom que cheguei a tempo ainda!
- Que fila que não anda – Reclama Antônio.
- Filho, quanta impaciência, a vida é como uma fila! Basta ter o ingresso certo e chegar no horário o restante é consequência!
- Por favor meu senhor, nem lhe conheço e o senhor já vem filosofar para cima de mim!?

Antônio houvera sido extremamente rude, afinal o que aquele jovem senhor tinha a ver com seus problemas, porém duro como é, não se desculpou com o senhor.

Ainda sem título

Perguntaram-me hoje com eu estava.
Eu somente teria uma resposta: “Cheia de amores não correspondidos!”.
Excessivamente romântico para um cronista como eu, que busca sempre escrever baseado em fatos correntes e coisas que de fato acontecem na vida das pessoas.
Mas parece que o vírus da paixão me pegou, ainda mais agora ouvindo uma canção do Bruce Springsteen, muito velho para alguém de 25 anos, mas essa música é tão atual, não sei ao certo   o que ela diz, mas é tão bonita que me parece aceitável que ela embale minha escrita.
Existem mulheres que tem o incrível poder de mexer com a gente sem fazer nada, para enfeitiçar um homem essas mulheres somente precisam existir e nada há que possa sarar o coitado que por elas se encanta.
É incrível como certas mulheres mexem com o nosso imaginário, são como vírus mentais que assolam nossa razão por completo.
Já estou me sentindo voltando ao normal. A música acabou e já voltei a considerar o amor uma má ideia. UFA!!!!
Parece que por essa noite estou a salvo, ou não.
Ela me faz pensar que tudo pode ser diferente, que posso jogar meus sonhos para o alto e que somente ela me basta. Somente o beijo que eu ainda não provei, o abraço que ainda não experimentei, o sexo do qual eu ainda não gozei.
Então o devaneio é capaz de me dominar por completo, é capaz de me fazer perder o controle sobre o meu raciocínio, sobre minha escrita. Parece que finalmente sou eu escrevendo.
Será que terei a coragem de publicar meus escritos?
Se tiver, caro leitor, saiba que é porque ela não me quis e aí não restará mais esperança.
Meu destino será pensar em como teria sido e imaginar uma vida junto à minha amada, quando na realidade estarei escrevendo devaneios românticos, crônicas chatas de serem lidas, textos que a ninguém interessa.
Mas cabe a mim entender e me resignar ao meu destino ou então copiar o Werther de Goethe.