sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Para moça charmosa

De Pablo Sathler


Pois então, isso nunca havia acontecido
Não mesmo! É SÉRIO !
As outras vezes, que eu achava que era
Não eram. NÃO MESMO!

As vezes que eu achava que era
Eram ideais demais
Longe demais
Distantes demais

Desta vez, estava perto.
Tão perto que sentiu minha pulsação
Não é ?
Mas desta vez, era sério.

Tão sério que chorei
Chorei mesmo
Não é ?
Pois então

Porém, ela não estava no mesmo BPM
Não mesmo!
Ela era uma quiáltera de sete
E eu um quatro por quatro

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Só o corpo a corpo fala

Xico Sá


O melhor e mais revelador episódio de uma campanha é quando a base tenta humanizar o candidato ou colocá-lo à prova dos normais. Neste perigo da hora, o marqueteiro perde o controle. O improviso, raro momento em que o eleitor está no comando, prevalece sobre todas as armações.
O bêbado de campanha, por exemplo, é um clássico. Ele surge do nada, dá uma gravata apartidária em qualquer autoridade, descola o da pinga com os assessores e, geralmente, grita, em brado retumbante, o nome de um concorrente na disputa.
Memória eleitoral rápida: o ex-governador Covas foi o político que testemunhei com o radar mais aguçado para driblar, de longe, um pé de cana. Era o seu único temor no corpo a corpo. O sangue espanhol fervia nessa hora.
A beijoqueira ou a periguete eleitoral também é um grande teste. Repare no que aconteceu com Serra em uma caminhada pelo centro de SP. Apenas uma tarada, diria o cronista Nelson Rodrigues, é capaz de humanizar uma eleição. Ela cumpriu lindamente a sua vontade. Eros agradece, perdeu Tânatos, mais uma vez.
Em uma eleição, só o corpo a corpo fala. Uma coisa é o Chalita vender milhões de livros de autoajuda com uma pegada filosófica de Grécia Antiga. Outra coisa é enfrentar uma eleitora cheia de amor platônico tentando convencê-lo a uma transa homérica, como sugerido no poema do Eduardo Kac.
No corpo a corpo, por mais regulado, só a base manda. O moleque pega a bola, põe na marca do pênalti e ordena: Serra, bate o pênalti. Faz uma embaixadinha para ver se você manja, diz o outro para o Russomanno. Só dou o meu voto, Haddad, se você seguir o Lula no meu Corinthians. Você tem que dar um jeito no Palmeiras, Soninha, não podemos cair para a Segundona.
O tucano chutou, mas só o sapato foi parar no fundo das redes. O cara do PRB quase quebra as câmeras dos fotógrafos, ontem, na Vila da Paz, zona sul, ao tentar mostrar que sabe. O petista continuará são-paulino depois do pleito --homem que é homem muda de sexo, mas não de time. A candidata do PPS, militante da crônica esportiva, tem dado sorte como torcedora.
É, amigo, na rua quem dá bola é o eleitor. Raro momento em que a base manda na mentira do marketing.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Imitando o velho Buk


De Pablo Sathler

Joe, Martin e Maggie me chamaram para uma cerveja. O dia estava chuvoso e eu meio desanimado para sair de casa. Porém precisa molhar a “palavra”. Fazia muitos dias que estava trabalhando naquela coisa de entregas. Combinamos de ir ao Moll’s, como sempre. Onde os perdedores se encontravam para afogar suas mágoas. Porém era o melhor bar da cidade. Havia cerveja barata, e Moll, dono do bar, fazia uma porção de fritas que era de arrasar. Peguei meu velho Austin 67 e encontrei todos às 23hs. Horário onde as putas e os trabalhadores da indústria resolviam dar uma volta. Chegando no bar, dei sinal para Moll, que iríamos sentar na calçada, pois ainda assim estava muito calor, mesmo depois da chuva. Moll achou um pouco estanho, pois sempre sentávamos no balcão, bem próximo as garrafas de uísque. Peguei as mesinhas singelas do bar, e juntei três, pois ainda estava por vir John, Susie e Charles. Eram apenas dois casais e os solteirões de sempre, Eu, Joe e Charles. Que trio nós éramos! Sempre dizendo que essa coisa de namorar ou ter uma única mulher era para os perdedores, que não confiavam no que tinham entre as pernas. Após discutirmos que existem pessoas no mundo que não sabem aproveitar a vida, que se preocupam demais com a saúde, com o corpo, e que no fim das contas todos jogam terra no nosso buraco, decidi ir embora, pois havia bebido demais e não queria estragar meu único bem, meu Austin 67 que herdará de meu velho pai. Paguei minha parte da conta, seis dólares. Foi nesse momento que refleti: Como esse bar é ótimo! Despedi de todos, peguei minhas chaves e entrei no meu velho carro. De repente vejo alguém acenando, não tinha notado que era pra mim. Olhei bem, e vi que era uma mulher. Ela gritou:
_ Hey baby!
_ Olá – meio que sem jeito.
_ Te conheço, certo? – Ela dizia.
Olhei bem para aquele corpo, e disse: _ Não mesmo!
_ Você está indo pra lá?  - Apontando a direção oposta de onde eu ir.
_ Não, não, mas posso te levar lá. – Não podia perder aquela oportunidade.
Fui levando a mulher, para longe da cidade, perguntei seu nome, era Judy. Mais do que depressa, elogiei seu nome. Ela me apontou onde devia estacionar o carro e me disse:
_ Que tal pararmos ali e...
_ Claro que sim!
Porém me lembrei que não trazia nenhum plástico comigo. E lhe contei a situação. Percebi que não havia nenhum problema pra ela. Foi quando ela me disse:
_ Eu te chupo então!
_ Claro!
_ Tem dez dólares ai? – Me questionou.
_ Não, infelizmente não, Deixei todo o meu dinheiro no bar. Gastei tudo.
_ Me espera ali que vou buscar uma coisa, e não quero te envolver nisso.
_ Não espera! Vou lá com você.
_ Não! Fiquei ai, não quero te envolver com isso.
Fiquei esperando por uns três minutos, que pareciam horas. Liguei o rádio para me distrair. Eram os Stones que estavam a tocar. Contando os minutos, vejo uma viatura passar lentamente na rua a minha frente. Foi ai que fiquei com o cu na mão. Notei que o efeito do álcool já estava passando. E percebi na roubada que estava entrando. Mas queria uma chupada, queria mesmo! Só não queria lhe dar dez dólares. Dei uma volta de carro, e parei no mesmo lugar, esperando por Judy. O beco que ela havia entrado era bem escuro, mas notei alguém saindo do beco, era ela. Arranquei o carro, e parei do lado dela, que estava meio triste.
_ O que foi? – Perguntei.
_ Sem grana não da!
_ Putz, que merda heim.
_ Pois é fazer o que.
Ainda não desistindo da proposta anterior de Judy, perguntei:
_ Onde você mora?
_ Por quê?  - Ela me retrucou.
_ Te levo em casa.
_ Não, não.
_ Uai, porque?
_ To meio nervosa ainda, vou voltar pro Moll’s e tomar mais algumas.
_ Mas é o nosso combinado?
_ Você ta com pressa? – Insistia em me responder com outra pergunta.
_ Infelizmente estou.
_ Então está bem, para o carro ali pra eu poder descer.
_ Mas...
_ Olha, eu fui sincera com você.
_ Tá bem então.
Cheguei em casa perto da meia-noite. Coloquei meu velho calção de dormir. E me lembrei que havia dado dois beijos em Judy. Corri para meu armarinho e peguei um vidro de álcool que guardava, para diminuir um pouco a ação dos pernilongos. Fui ao banheiro, coloquei cuidadosamente o álcool em sua tampinha de plástico, e molhei meus lábios com aquilo. A sensação era bem desagradável, mas era necessário fazer aquilo. Após untar bem os lábios, coloquei outra dose de álcool e fiz como no bar, virei de uma vez só. O gosto do álcool puro era horrível! Dei umas bochechadas com a pequena dose e cuspi no lavabo. Lembrei da cachaça que tinha tomado no Julio’s, outro bar da cidade. Escovei dos dentes umas três vezes. Usei o resto daquela coisa para evitar caries e mais complicações dentárias para terminar de esterilizar minha boca. Fiz o balanço mental da noite. Era bem bom, em relação às outras já vividas. Tomei uma boa dose de uísque e me deitei.

Por conta da casa


De Pablo Sathler

Chego em casa às três da manha. Bêbado. Olhos para meus pés e vejo uma enorme titica. Penso. WHAT HELL!!!. Aos poucos começo a me lembrar da noitada. Junto aos flashs de memória, o gostinho de Gim me vem a boca. Estava eu no Julio's. Entrei no bar, havia uns 5 bêbados tentando alguma coisa com as prostitutas. Quando passei pela por ouvi. “Se você me pegar, vai gozar a noite inteira!”. Assustei-me com os dizeres e olhei de canto de olho para a puta. Ela estava em um vestido amarelo vomito que me lembrava as minhas várias noites no Julio's. Graças a Deus não consegui ver o rosto dela, porque geralmente essas mulheres são verdadeiras agressões visuais, principalmente se tentam enganar o cafetão. Avistei meu banquinho, o de sempre. Próximo o barman, claro. Pedia a Beck um Jim e uma água. Rapidamente minha bebida chegou. Deus abençoe Beck. Quando estava enxugando meu copo, percebi uma das putas se aproximarem. Ela usava aqueles saltos gigantescos que demonstrava alguma classe. Gostava disso. Ela se sentou ao meu lado. Nem dei atenção. Porém percebi que ela me olhava fixamente. De repente ouço. “Ei garotão, o que vai ser?”. Tive a infelicidade de olhá-la. Ela tinha os dentes separados, a boca torta, os dedos magros e compridos, sem falar no hálito que me lembrava meu antigo emprego, limpador de fossa. Por um segundo todas as minhas fodas que não eram muitas passaram pela minha cabeça. Pensei “porque não? Vai que ela me ensina algo novo?”. Olhei para o ombro da puta, esse era o único modo de não vomitar na cara dela. Disse a ela:
_ Quanto tá?
_ 25
_ O QUÊ?'
_Isso mesmo que você ouviu.
Conferi mentalmente quanto de grana me restava. Tinha 20 pratas. Gostava de fazer essa conta de cabeça, ajudava na memória e era uma forma dos bandidos não saberem o quanto tinha em meus bolsos. Disse a ela:
_Tenho 20 pratas.
_Pra você eu faço por 20.
_Mais ainda tenho que pagar a minha bebida.
Terminando de dizer o “A” de bebida, Beck me olhou rápido, e com um sorriso sarcástico veio até a mim.
_Que isso cara, essa é por conta da casa.
_Mas como assim? - eu disse
_É cara, essa ai vai de brinde.
_Corta essa Beck.
_Essa bebida vem acompanhada de uma noite incrível com JANETE.
_Quem?
_ Janete, essa “gracinha” do seu lado.
Ela me olhou de uma forma violente, parecia um leão que não comia a 3 semanas. Sedenta de prazer, me agarrou pela gola e dizendo no pé do meu ouvido:
_É meu bem, você me leva de brinde.
Pensei, “porquê não?”
Nesse momento todos do bar me olhavam, pensavam que eu era um perdedor comendo Janete.
Joguei minhas 20 pratas pra Beck, ele me votou 15 centavos, só para gozar com minha cara.
Chegando no quarto do motel abri um vinho. Servi dois copos e disse:
_ Vamos terminar logo com isso.
_Credo! Não seja tão incessível.
Pensei, “Fica na sua ai, você é puta, não tem que falar de sentimento”
_Tá bem minha querida.  - eu disse.
_Assim está bem melhor – ela disse toda se achando.
Deitei na cama, tirei minha roupa, ela montou em mim e fez o serviço. Gozei. Sabia rebolar, isso ela sabia. Acabei com o resto da garrafa de vinho, e fomos embora. Deixei-a na porta do Julio's. Fui
para meu quarto e dormi como um bebê.

Canarinhos de Itabirito, a 39 anos dando orgulho

       Ontem tive o prazer de assistir o espetáculo "Identidade" do Coral Canarinhos de Itabirito.
       Que a muito tempo este é um dos melhores corais de jovens cantores do Brasil, isto é um fato indiscutível, mas este coral sob a regência do maestro Éric Lana e equipe tem impressionado, a cada espetáculo, pela versatilidade de seus cantores e pela renovação incessante.
        O espetáculo Identidade resgata grandes clássicos da música brasileira, bem como canções folclóricas, tradições indígenas e uma louca variação para canções eruditas, jazz e a emocionante versão da música "A paz", do grande Michael Jackson.
        Gostaria, nessas mal traçadas linhas, elogiar efusivamente a todos que trabalharam neste espetáculo, parabéns à direção de arte e a iluminação, que estavam impecáveis e, principalmente a estes talentos maravilhosos que fazem deste coral um orgulho para a cidade de Itabirito.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A Cruz de Giz


Eu sou uma criada. Eu tive um romance
Com um homem que era da SA.
Um dia, antes de ir
Ele me mostrou, sorrindo, como fazem
Para pegar os insatisfeitos.
Com um giz tirado do bolso do casaco
Ele fez uma pequena cruz na palma da mão.
Ele contou que assim, e vestido à paisana
anda pelas repartições do trabalho
Onde os empregados fazem fila e xingam
E xinga junto com eles, e fazendo isso
Em sinal de aprovação e solidariedade
Dá um tapinha nas costas do homem que xinga
E este, marcado com a cruz branca
ë apanhado pela SA. Nós rimos com isso.
Andei com ele um ano, então descobri
Que ele havia retirado dinheiro
Da minha caderneta de poupança.
Havia dito que a guardaria para mim
Pois os tempos eram incertos.
Quando lhe tomei satisfações, ele jurou
Que suas intenções eram honestas. Dizendo isso
Pôs a mão em meu ombro para me acalmar.
Eu corri, aterrorizada. Em casa
Olhei minhas costas no espelho, para ver
Se não havia uma cruz branca.
(Bertolt Brecht)

RETRATO DE MULHER – SÉCULO XIX


A voz sufocada no vestido.
Os seus olhos seguem o gladiador.
 Então, ela mesma aparece , altiva, na arena.
 Será livre?
 Uma moldura dourada
segura o retrato, no cavalete.

(Tomas Tranströmer)